quinta-feira, junho 08, 2017

Conto: À QUEIMA-ROUPA

 À QUEIMA-ROUPA
By Elisandro Félix de Lima

Era noite de sexta-feira, e a pequena cidade de Santana estava em festa, comemorava vinte anos de emancipação política. Após várias apresentações na principal avenida da cidade, um grande show com cantores regionais acontecia, era algo que se repetiam todos os anos. Santana, apesar de ser uma cidade nova, tinha o centro comercial muito bem organizado: lojas de confecções, bancos, supermercados, restaurantes, escritórios, hotéis, papelarias, bares, entre várias indústrias, que era o forte da cidade em geração de empregos.
Apesar de toda organização, há pouco tempo atrás, pessoas (sem teto) fizeram uma invasão num morro próximo a cidade. Antigamente nesse lugar, havia um grande plantio de graviola, depois que vários barracos foram construídos por lá, deram o nome de Morro da Graviola.
De qualquer forma, a população da pequena cidade, comentava que no morro morava muita gente boa, mas também acreditavam que o lugar seria esconderijo de maloqueiros. Certo preconceito?
Mas, voltando ao assunto da festa. Era aproximadamente vinte e três horas, e quase toda a população da cidade estava reunida na avenida principal. Era natural que numa noite como aquela, os bairros se esvaziassem.
Os irmãos Marcinho e Marcelo eram bem conhecidos por todos do Morro da Graviola. Gente boa! Faziam a passos largos a descida em direção ao centro da cidade para então participar da festa. Em questão de quinze minutos, já estariam no meio da multidão.
Numa certa rua, muito escura, daquelas que vândalos quebraram as iluminárias, os rapazes avistam um vulto, parecia ser duas pessoas que viriam em sua direção, na boca daquele vulto uma pequena brasa de cigarro que hora acendia, hora apagava parecia um vaga-lume.

O coração de Marcelo acelerou e o pensamento de Marcinho pressentiu que aquele vulto não seria boa coisa. Um grande estalo! E o vaga-lume acendeu mais forte, outro, e mais outro, e assim mais quatro barulhos ensurdecedores, cheiro de pólvora, a menos de cinco metros dos rapazes. Sem ao menos saber como, os irmãos já estavam amoitados no matagal, um ao lado do outro.
-Marcinho, você viu aquilo mano?
-Vi! A queima roupa. Quase nos acertou.
-Verdade! Achei que o cara estava atirando na gente.
-Foi não, foi naquele indivíduo ali no chão.
-Mano do céu, senti uma bala raspar minha cuca.
-E a pólvora está queimando meus olhos.
-Cara! Quem será que pipocou isso? Por que fez isso? Você viu a direção do doido?
-Sumiu como fumaça no espaço. E parece que o cara ali no chão já era! Quem será esse que levou a pior?
-Sei não.
-Aí Marcinho! Vamos dar o fora daqui? A coisa vai fedê.
-E se nós chamar os homens?
-Deixa isso pra lá, isso pode complicar, o cara já era mesmo.
-Quem sabe, ele pode está vivo!
-Que nada! Esse aí, já era! Vamos abrir fora!
-Sim! Você tem razão, vamos festeja a polícia que resolva isso depois.
E assim, os rapazes, ainda assombrados, saíram do matagal, pisando em lama, ao menos olharam para o cadáver.
O fato fez com que os rapazes chegassem ainda mais rápido ao evento. Um trato entre os dois foi firmado, nenhum comentário sobre o assunto durante a festa. E assim, a diversão com os amigos e a presença de belas garotas na festa foi um grande chá de esquecimento para os rapazes sobre o ocorrido. Um gole daqui, outro dali, e na hora de pagar a conta Marcelo percebeu que tinha esquecido sua carteira em casa, então, seu irmão foi o responsável pelo pagamento de todas as despesas naquela noite.
O dia já estava quase amanhecendo a festa terminava, e a promessa de ser melhor ainda no próximo ano. Os irmãos voltavam para a casa pelo mesmo caminho que viera. Não sei se foi à bebida, mas realmente já nem lembrava que havia presenciado uma execução antes da festa.
Uma grande movimentação de curiosos. Policiais e peritos faziam uma investigação criminal, o corpo ainda estava no local, intacto, e todo os projeteis cravados no peito. Alguém nunca visto na cidade, e ninguém se arriscava a dizer.
Os rapazes se aproximam. Um grande silêncio abafa ainda mais o ambiente enquanto o primeiro raio do sol aparecia no céu. Um policial cochicha, a multidão também, um perito olha um documento de identidade, de uma carteira encontrada a beira do matagal. Um investigador observa rastros na lama. A certeza de ser os mesmo daqueles tênis de marca falsificada. Ouve-se a voz estrondosa do delegado. - Final das investigações! Algemem os dois!

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