quinta-feira, junho 08, 2017

CONTO: VERÔNICA FUNQUEIRA

VERÔNICA FUNQUEIRA
By Elisandro Félix de Lima.

Favela Dos Maracás, madrugada de sexta-feira. Três badaladas no velho relógio de parede acordou Verônica. Sentiu-se úmida, a cama estava molhada, até pensou que fosse água da chuva, o barraco apresentava muitas brechas, tanto nas paredes como no teto. Não somente ali, também no chalé de toda a vizinhança. Um cheiro de carne espalhava-se pelos ares. Verônica certificou-se que um líquido escorria de suas entranhas. Esticou o braço, alcançando o interruptor da lâmpada, que clareou todo aquele quarto-sala-cozinha. E em seu ventre, uma pontada de dor. Parecia que uma espada lhe entrara pelo umbigo. Estava impossibilitada de levantar. Agoniada, com as dores que a cada minuto multiplicava em seu útero, juntou o lençol, fez dele uma rolha de pano e mordeu fortemente. O trapo impedia que seus vizinhos acordassem com os gritos de desespero. A água que agora molhava a cama era sua transpiração. A moça soprava o travesseiro, espremia-se, gemia e a cólera não cessava.
O velho relógio novamente badalava, agora por quatro vezes. Verônica, deitada de costa, arreganhou as pernas ao máximo que pôde, mordeu novamente a rolha de pano e com as mãos apertou firme a imensa e luzente barriga. Numa contagem de um a três em sua mente, soprou com muita força aquele lençol. Das suas entranhas escorregou uma criança aos berros. Como um passe de mágica as dores cessaram. Alcançou ali mesmo ao lado de sua cama, uma tesoura enferrujada, que mal cortava papel, mas que naquele momento lhe serviu de ferramenta. O que a separou do chorão.
Minutos depois, a criança dormia enrolada em panos umedecidos de água de parto. Assim, Verônica destrancou a porta do barraco, agarrou o pequenino entre os braços e saiu pisando macio pelos becos da favela. O silêncio era assombroso. Na descida do morro, ainda muito escuro, passou entre valetas e sobre pinguelas improvisadas, espremeu-se entre gretas, tropeçou em garrafas de birita, escorregou em lamaçal, atravessou a rua e caminhou pela avenida sentido centro da cidade.
Alguns passos depois, a claridade do dia começava aparecer - a moça com a criança entre os braços, atravessava uma ponte que dividia a favela de uma pequena região comercial – parou a bordo do precipício que media aproximadamente quatro metros – com um olhar tristonho, observou muitas rochas pontiagudas e pouca água que corria entre elas. Pensativa, deu mais um passo a frente, encostou o pé em uma pedrinha que rolou do alto até ser tocada sobre as maiores que lá embaixo estava. Verônica descobre o rosto da pequena criatura – de modo suave beija-o sobre a testa – olha para os lados, e não avista ninguém, a não ser um cachorro magricelo que procurava comida entre sacolas de lixo que muitos moradores da favela jogava a beira do penhasco. Uma lágrima rola dos olhos da moça, que cobre novamente o rostinho da criança. Um minuto a mais de pensamento, e um filme se passou em sua cabeça: sexo, drogas e baile funk. Um passo para trás e assim continuou sua caminhada.
As pernas da moça estavam bambas e o cansaço a dominava, quando então se aproximou da porta de uma creche conhecida por nome de “Pequenos e Inocentes”. O local atendia crianças da favela. Nesse momento a pequena criatura começou a chorar – era a fome que lhe apertava a barriga. A moça para não ser vista, rapidamente coloca a criança sobre o tapete de entrada e abre em fuga.
Ao passar pela ponte avista no bordo ?? , o cachorro que minutos atrás vira procurando comida – agonizava. Tinha sido atropelado por um veículo e assim como fez com a pedra, encostou o pé no animal e empurrou-o precipício abaixo. A longos passos subiu o morro, a vizinhança começava a despertar - entrou em seu barraco, recolheu todo lençol que as moscas já tomavam conta, lavou e estendeu-os em um pequeno varal dentro do chalé. Sentindo cansaço pelo esforço que fizera na madrugada, forrou a cama com um cobertor - deitou e dormiu.

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